Discos Essenciais para Claudia Amorim


Cantora, que está lançando novo álbum com releituras de Chico Buarque e Beto Guedes, escolhe os trabalhos que mais marcaram sua vida. Foto: Divulgação.

Como escolher apenas 5 Discos Essenciais que marcaram a vida dos artistas? Quem responde a essa pergunta já tradicional dessa vez é Claudia Amorim.

Claudia está lançando em 2026 um novo álbum, que traz a maturidade e a urgência do amor com releituras de Chico Buarque e Beto Guedes, além de canções inéditas, e aceitou o desafio e fez uma lista recheada de clássicos da MPB. Confira!

1) Olho de Peixe de Lenine e Marco Susano

Lançado no inicio dos anos 90, esse disco mexeu profundamente com a minha visão sobre violão e pandeiro. Ainda não tinha ouvido nada que fizesse tanto sentido pra mim. A comunhão perfeita que engrandece qualquer música. Eu ouvi mais de mil vezes! Um disco que aposta nas canções praieiras certamente inspiradas  na obra de Dorival Caymmi, mas com um groove moderno  e   impactante. O mar e uma personagem. Na época me pareceu um dos melhores e mais interessantes discos lançados e que trouxe Lenine para a minha vida. O mar está presente de alguma forma em todas as canções e o mar é meu ambiente necessário e fundamental.  Esse disco mexeu tanto comigo que ele é uma das influencias pro meu novo trabalho Novos Tempos, 20 anos depois. Foi a junção mais incrível de dois instrumentistas.


2) Opera do Malandro – Chico Buarque

Toda a obra do Chico é essencial e transformadora para mim como artista e como cidadã. Muito difícil escolher um disco específico, mas este, Opera do Malandro, me atravessou de uma maneira arrebatadora. A começar por uma foto do encarte onde se via uma família muito pobre dividindo um barraco mínimo, todos dormindo juntos, ambiente muito escuro e um terno branco engomado, limpo e brilhante pendurado em uma cadeira da casa de um cômodo. Aquela foto não saia de minha cabeça e eu ouvi o disco centenas de vezes olhando para aquela foto tão escancaradamente perturbadora e que continha nela mesma um universo da personagem : o malandro. Ali eu percebi que um disco é muito mais que apenas as músicas mas é um conceito inteiro que envolve uma identidade visual  bem definida e condizente com as letras e músicas. Opera do Malandro é um musical mas as músicas são tao completas em si mesmas que vários e vários artistas gravaram faixas em separado como se fossem singles. As músicas, cantadas pela nata da MPB, mostram o submundo de um Brasil de jogos, prostituição e contrabando dando sentimentos e humanidade a casa personagem. É desse disco a Geni e o Zepelim que pra mim é obra prima. Esse disco me fez ver a música como uma fonte de historias, conhecimento e transformação da sociedade. Algo que me mudou pra sempre como artista.

3) Elis Regina no Montreux Jazz Festival Ao Vivo 

Elis foi a grande referência de cantora de MPB pra mim, era um gênio do canto e o que mais me encantava era que Elis usava a sua voz de peito com uma competência e carregada de emoções e tudo nela era voz e coração. Eu cresci querendo ser ela. Copiando o jeito dela cantar, ouvindo todos os discos, percebendo toda a técnica que ela usava , a afinação perfeita, a divisão rítmica que tornava a música um obra em coautoria com o compositor. Neste disco  em Montreux, Elis faz coisas com a voz que são inacreditáveis e tudo ao vivo, sem nenhum recurso de afinação ou outro qualquer. Elis era e é a maior cantora desse país e a rainha da voz de peito. Até hoje uso a gravação de Na Baixa do Sapateiro Ao Vivo em Montreux quando quero estudar a voz forte, o pancadão, o peito vibrando, a posição da boca como um perfeito autofalante para ressonância de peito. Uma aula de canto.

4) Nó na Orelha – Criolo

Esse disco é um clássico da música contemporânea brasileira e me fez tirar o “Tijolo do Ouvido” e me abrir pro Rap e pra esse universo incrível da realidade das periferias urbanas de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.  Se eu tinha algum preconceito com os rappers, Criolo foi o responsável pela minha abertura para este gênero. Pra mim, Criolo é um poeta que toca profundamente em questões muito reais do ser humano. Foi neste disco que conheci “Não Existe Amor em SP” com certeza o grande sucesso dele e quis grava-la com uma cara mais MPB. Ele me autorizou e deu seu aval e eu caí dentro do labirinto místico e poético criado por ele pra descrever as grandes metrópoles. Vi que o rap é uma música de protesto atual e vibrante.  È  a voz moderna das periferias. 

5) Joao Gilberto –   Ho Ba La La  Joao Gilberto Quinteto

Toda a vez que ouço João Gilberto me arrepio toda e sinto no coração porque este homem é considerado um gênio.  Este álbum traz 22 músicas mais emblemáticas com João e seu quinteto,  desde uma das pouquíssimas composições dele ( Ho bá lá lá) até seus grandes sucessos. Esse disco é uma viagem. Dá pra ouvir, deitada no sofá, tomando um vinho e degustando as grandes músicas da MPB. Esse álbum me toca profundamente. Me traz memória familiares e um orgulho enorme de escolher a MPB como minha guia.