A seção Discos Essenciais traz o grande multi-instrumentista, compositor e vencedor do Grammy Latino Hamilton de Holanda, escolhendo os discos que mais maracaram a sua vida.
"Escolher cinco discos que marcaram minha vida é uma tarefa difícil, porque a música sempre chegou até mim de muitos lugares: da casa, da rua, do palco, dos encontros, dos mestres, das viagens e da imaginação. Mas alguns álbuns ficam gravados de uma maneira especial — não apenas pelo que eles têm de música, mas pelo que despertaram em mim como pessoa, como instrumentista e como compositor.
O músico, que lançou, em maio de 2026, NOVA, seu novo trabalho com 14 músicas que contam histórias reunidas em suas viagens pelo Brasil e pelo mundo, traz uma seleção espetacular de álbuns. Confira!
Angelus — Milton Nascimento
Angelus, de Milton Nascimento, é um disco que me toca profundamente. Milton tem essa capacidade rara de transformar uma canção em paisagem, oração, memória e sonho ao mesmo tempo. Sua música parece vir de um lugar ancestral, mas também aponta para o futuro.
Nesse álbum, sinto uma mistura de Brasil, mundo, espiritualidade, invenção e afeto. É música sem fronteira, mas com raiz muito forte. Milton me ensinou que uma melodia pode carregar uma força imensa sem precisar explicar demais. Basta soar com verdade.
Cinema Paradiso — Ennio Morricone
A trilha sonora de Cinema Paradiso, composta por Ennio Morricone, é um daqueles discos que mostram como a música pode contar uma história, mesmo sem palavras. Cada tema parece carregar uma lembrança, uma imagem, uma saudade.
Esse disco me marcou pela beleza da melodia e pela capacidade de emocionar de forma direta. Morricone consegue ser simples e profundo ao mesmo tempo. A música dele toca num lugar muito humano, como se falasse da infância, do amor, da passagem do tempo e da memória afetiva que cada um guarda dentro de si.
Vibrações — Jacob do Bandolim
Vibrações, de Jacob do Bandolim, é um disco fundamental para mim. Jacob é uma referência absoluta do bandolim, do choro e da música brasileira. Sua maneira de tocar reúne precisão, elegância, balanço, emoção e uma autoridade musical impressionante.
Esse álbum me acompanha como uma espécie de escola. Ali está uma visão muito profunda do choro: o fraseado, o som, a intenção, o respeito pela melodia e, ao mesmo tempo, a liberdade de quem domina completamente a linguagem. Para quem toca bandolim, Jacob é uma montanha. A gente olha, admira, aprende e segue subindo.
Three Quartets — Chick Corea
Three Quartets, de Chick Corea, abriu muitas janelas na minha cabeça. Chick sempre foi um músico de invenção, energia e liberdade. Nesse disco, existe uma força rítmica, harmônica e criativa que me impressiona muito.
É um álbum que mostra como a música pode ser complexa sem perder o impulso vital. Tudo está em movimento: as ideias, os diálogos, os caminhos harmônicos, a interação entre os músicos. Para mim, Chick Corea representa essa coragem de criar mundos próprios dentro da música. Ele me inspira a buscar sempre novas possibilidades.
Luz — Djavan
Luz, de Djavan, é um disco que marcou minha relação com a canção brasileira. Djavan tem uma maneira única de unir melodia, harmonia, ritmo e poesia. A música dele tem sofisticação, mas também tem corpo, balanço, calor e comunicação direta.
Nesse álbum, sinto um Brasil muito particular: solar, elegante, inventivo, cheio de imagens e cores. Djavan me ensinou muito sobre como uma canção pode ser refinada e popular ao mesmo tempo; como a harmonia pode surpreender, sem afastar; e como a melodia pode parecer natural, mesmo quando carrega um mundo de invenção por dentro.
Esses cinco discos fazem parte da minha formação afetiva e musical. Cada um, à sua maneira, me mostrou um caminho: Milton, a espiritualidade da melodia; Morricone, a força da emoção cinematográfica; Jacob, a profundidade do choro; Chick Corea, a liberdade da invenção; Djavan, a beleza sofisticada da canção brasileira. São discos que eu não apenas ouvi. São discos que ficaram em mim.