A A24 desenterra Sexta-Feira 13 pelo olhar de Pamela Voorhees


Com Linda Cardellini no papel da mãe de Jason e gravações nas locações originais de 1980, a série Crystal Lake, que estreia em setembro de 2026 no Universal+,  foca nas origens do massacre no acampamento para devolver fôlego à franquia mais acidentada do slasher. Foto: Divulgação.

A história de Sexta-Feira 13 dentro do cinema de gênero americano sempre operou na base do pragmatismo comercial. Em 1980, Sean S. Cunningham pegou a estrutura de suspense que John Carpenter havia estabelecido em Halloween (1978), somou o trabalho de maquiagem e próteses de Tom Savini e entregou um sucesso de bilheteria feito com orçamento modesto. 

A Paramount percebeu o retorno rápido e tratou de lançar continuações em ritmo quase anual. A saga teve momentos em que a fórmula funcionou muito bem na tela, como a violência inventiva de Sexta-Feira 13 - Parte 4: O Capítulo Final (1984) e a virada cômica de Sexta-Feira 13 - Parte 6: Jason Vive (1986), que ressuscitou o assassino como morto-vivo e antecipou a paródia autoconsciente anos antes da estreia de Pânico (1996).

O desgaste do formato, no entanto, apareceu rápido nos lançamentos seguintes. Entre os cortes pesados da censura americana para diminuir a violência visual e ideias desconexas como mandar o mascarado passear de barco em Jason Toma Manhattan (1989) ou orbitar a Terra em Jason X (2001), a série perdeu o rumo. Para travar de vez os planos de cinema, a marca passou anos congelada em tribunais por uma disputa legal entre o diretor Sean S. Cunningham e o roteirista Victor Miller sobre a posse dos direitos autorais. A saída do limbo jurídico aconteceu quando a NBCUniversal e a plataforma Peacock fecharam parceria com a produtora A24 para tirar o projeto do papel no formato de série.

Levar um slasher tradicional para uma produtora conhecida pelo terror autoral gerou atritos imediatos de bastidor. A produção começou sob o comando de Bryan Fuller, roteirista com passagens marcantes pela estética rebuscada de Hannibal (2013–2015) e pelo tom fantástico de Pushing Daisies (2007–2009). 

Fuller planejava uma temporada de oito episódios com custo estimado em dez milhões de dólares por capítulo e escalou cineastas como Vincenzo Natali (Cubo, 1997) e Kimberly Peirce (Meninos Não Choram, 1999) para dirigir episódios. 

A A24 e o Peacock avaliaram o roteiro como sombrio demais e concluíram que a proposta não sustentaria várias temporadas, o que levou à demissão do showrunner. Quem assumiu a vaga em definitivo foi Brad Caleb Kane, roteirista vindo dos trabalhos em It: Bem-vindos a Derry (2025) e Black Sails (2014–2017), mantendo Victor Miller creditado na produção executiva.

A equipe também resolveu buscar as raízes visuais do primeiro filme na escolha das locações. A produção deixou de lado os estúdios fechados e levou as câmeras para o acampamento de escoteiros Camp No-Be-Bo-Sco, na cidade de Blairstown, em Nova Jersey. Foi exatamente nesse mesmo lago e entre aquelas cabanas de madeira que Sean S. Cunningham gravou o clássico de 1980. Voltar ao terreno original resgata o clima isolado das filmagens dos anos 1970, afastando o aspecto asséptico comum em produções de streaming rodadas inteiramente em estúdio.

Na série, o enredo volta no tempo para focar na figura de Pamela Voorhees e nos anos que antecederam a tragédia do lago. O papel da mãe ficou com Linda Cardellini, atriz acostumada a equilibrar vulnerabilidade e tensão dramática, com passagens pela comédia dramática Disque Amiga para Matar (2019–2022), pela clássica Freaks and Geeks (1999–2000), pelo drama médico ER: Plantão Médico (2003–2009), além de ter encarnado a icônica Velma Dinkley nos cinemas em Scooby-Doo (2002) e marcado presença nos longas Brokeback Mountain (2005) e Green Book: O Guia (2018). O jovem Jason Voorhees é interpretado pelo ator mirim Callum Vinson, que atuou na série de terror Chucky (2021).

O resultado desse arranjo marca a primeira vez em décadas que Sexta-Feira 13 ganha uma produção voltada para o suspense de época e a relação familiar, sem abrir mão das mortes e da atmosfera de cabana no bosque. Com estreia marcada para o dia 16 de outubro de 2026 no Brasil pelo canal Universal+, trazendo todos os oito episódios disponibilizados de uma vez só, resta ver se a dinâmica entre o prestígio da A24 e o slasher clássico terá fôlego. 

Se o ritmo falhar, o Peacock apenas confirma a dificuldade de reinventar ícones oitentistas fora de seu tempo; se acertar a mão, prova que, como a própria Pamela ensinou nos minutos finais do filme de 1980, certas lembranças de família teimam em não afundar no lago.

Abaixo o trailer de Crystal Lake.