A verdade ainda está lá fora: Ryan Coogler reabre Arquivo X longe da nostalgia vazia


Com nova dupla de protagonistas e produção encomendada pelo Hulu, o reboot busca superar os tropeços recentes da franquia para resgatar a essência investigativa e conspiratória da série. Foto: Divulgação.

Por redação CSC

A Disney passou a última década revirando os arquivos da antiga 20th Century Fox em busca de marcas reconhecíveis para alimentar a grade do Hulu. Trazer Arquivo X de volta parecia o caminho óbvio dessa esteira corporativa, ainda que o histórico recente jogasse contra. 

A tentativa anterior da Fox com as temporadas dez (2016) e onze (2018) entregou episódios desconexos, perdeu público rápido e provou que a paranoia da virada do milênio já não assustava ninguém. 

O cenário mudou quando o Hulu resolveu bancar uma temporada completa nas mãos de Ryan Coogler, que já desenvolvia o projeto e assumiu tanto o roteiro quanto a direção do piloto. O nome de Coogler coloca a produção em outro patamar de bastidores. O diretor chamou atenção da crítica com o drama cru de Fruitvale Station: A Última Parada (2013), revitalizou uma franquia veterana com Creed: Nascido Para Lutar (2015), encarou os orçamentos gigantescos de Pantera Negra (2018) e faturou a estatueta do Oscar de Melhor Roteiro Original pelo terror sulista Pecadores (2025).

Para tocar as decisões diárias da sala de roteiristas, a produção escalou a showrunner Jennifer Yale, experiente em lidar com bizarrices narrativas como Legion (2017) e Outlander (2014). Chris Carter, o criador original da série de 1993, deu aval público ao projeto e assina como produtor executivo.

Coogler fez questão de conversar pessoalmente com Vince Gilligan, veterano da sala de roteiro clássica e criador de Breaking Bad (2008), para ajudá-lo a dissecar a mecânica dos episódios antigos antes de filmar.

Esse resgate da série original ditou o rumo estético do piloto, a começar pela escolha das locações. A produção abandonou Los Angeles, onde a série gravou suas temporadas mais fracas entre 1998 e 2002, e mandou a equipe de volta para Vancouver, no Canadá — exatamente a cidade fria e encharcada de chuva que serviu de berço para as cinco primeiras temporadas e definiu a cara do programa nos anos 1990. 

Nos bastidores, a fotografia do piloto foi entregue a Autumn Durald Arkapaw, de Loki (2021), enquanto Ludwig Göransson ficou encarregado da trilha sonora. O compositor já faturou três estatuetas do Oscar (duas delas em parcerias com Coogler por Pantera Negra, de 2018, e Pecadores, de 2025, além de Oppenheimer, de 2023) e acabou de fazer a trilha de A Odisseia (2026), de Christopher Nolan. A missão de Göransson na nova fase será conceber temas inéditos sem desrespeitar os arranjos minimalistas de sintetizador que Mark Snow consagrou na série clássica.

No elenco, a certeza é o abandono da ideia de colocar outros atores para fingir que são Mulder e Scully. O reboot aposta em dois agentes inéditos, vividos por Danielle Deadwyler e Himesh Patel. A dupla já havia dividido cena na adaptação da minissérie Estação Onze (2021) e ambos trazem em seu currículo participações em obras reconhecidas.

Deadwyler colecionou elogios pelo faroeste Vingança & Castigo (2021), chamou a atenção da crítica no drama histórico Depois do Vendaval (2022), dividiu a cena com Samuel L. Jackson na adaptação teatral e cinematográfica de A Lição de Piano (2024) e esteve em produções televisivas como Watchmen (2019) e P-Valley (2020). 

Patel, por sua vez, ganhou experiência trabalhando por quase uma década no elenco fixo da clássica novela britânica EastEnders (2007–2016), viveu o protagonista da comédia musical Yesterday (2019), esteve na sátira apocalíptica Não Olhe Para Cima (2021) e está presente em duas obras de Christopher Nolan, transitando entre a espionagem temporal de Tenet (2020) e o peso mitológico de A Odisseia (2026).

Para dar peso dramático ao episódio inicial, a produção escalou um time de coadjuvantes experientes: Steve Buscemi (Fargo, 1996; Boardwalk Empire, 2010–2014), Ben Foster (A Qualquer Custo, 2016; Six Feet Under, 2001–2005) e Amy Madigan (Medo da Verdade, 2007; Carnivàle, 2003–2005). 

David Duchovny e Gillian Anderson conversaram com Coogler durante a concepção da série, mas nenhum assinou contrato regular. Se aparecerem em algum momento, será uma visita rápida de corredor.

Ao que tudo indica, o seriado também rejeita o formato cansativo de filme picotado em capítulos. Coogler confirmou que a temporada segue a cadência da televisão aberta dos anos 1990, mesclando casos isolados de monstros semanais com a trama principal de espionagem do Estado. Se essa receita funcionar na tela, a franquia ganha uma sobrevida que parecia improvável; se errar a dose, o Hulu apenas comprova que nem todo caso arquivado sobrevive ao teste do tempo. Afinal, como o Homem Fumante (também conhecido como O Canceroso) cansou de avisar: “as respostas quase nunca trazem alívio”.

Ainda não há uma data de estreia confirmada para a nova versão de Arquivo X, mas vocë pode assitir todas as temporadas da série original no Prime Video e no Disney Plus.