Crítica de “Eu Me Amo”: o documentário que revisita a vida e o legado de John Candy


 Filme, dirigido por Colin Hanks e produzido por Ryan Reynolds, é um dos destaques da Prime Video. Foto: Divulgação.

Poucos atores representaram tão bem o espírito do humor norte-americano dos anos 1980 e 1990 quanto John Candy. O documentário Eu Me Amo (I Like Me, 2025), que revisita sua trajetória, funciona não apenas como uma homenagem, mas como uma janela para entender uma era em que o carisma, a vulnerabilidade e o timing cômico eram tão importantes quanto o próprio roteiro.

Candy não era o tipo de comediante ácido ou provocador. Sua força estava justamente no oposto: a gentileza. Ele construiu personagens que eram imperfeitos, inseguros e profundamente humanos — algo que o público reconhecia imediatamente. Filmes como Antes Só do que Mal Acompanhado, Splash, Jamaica Abaixo de Zero e Quem Vê Cara Não Vê Coração ajudaram a consolidar esse perfil de “homem comum” em situações absurdas, um arquétipo essencial para o humor da época.

O documentário é especialmente interessante por contextualizar o ambiente criativo que moldou Candy, incluindo sua passagem pelo lendário grupo Second City e sua presença em produções que ajudaram a definir o humor mainstream norte-americano. Ao mesmo tempo, Eu Me Amo revela um artista extremamente querido nos bastidores, alguém cuja presença era tão marcante fora das câmeras quanto dentro delas.

Ainda assim, o filme não deixa de ser, em muitos momentos, uma homenagem bastante “chapa-branca”. No começo, Bil Murray, amigo de longa data de Candy avisa "É muito difícil alguém falar mal dele". 

E, de fato, não há grandes rupturas narrativas ou investigações mais profundas sobre seus conflitos pessoais - especialmente sobre o consumo de álcool e de drogas. Em vez disso, o foco está na celebração de sua personalidade e impacto cultural (embore explore como a perda do pai deixou Candy extremamente vulnerável). 

Um dos grandes trunfos do documentário são os depoimentos. Amigos e colaboradores como Bill Murray, Dan Aykroyd e Eugene Levy oferecem relatos íntimos que ajudam a dimensionar não apenas o talento de Candy, mas também sua humanidade. Mel Brooks, entre outros nomes, também contribui com lembranças que reforçam o respeito que Candy conquistou dentro da indústria.

Mais do que contar a história de um ator, Eu Me Amo ajuda a entender uma fase específica do entretenimento, quando o humor se apoiava mais na empatia do que no cinismo. John Candy não precisava ser cruel para ser engraçado, e talvez seja justamente por isso que seu legado permanece.

Para quem cresceu assistindo seus filmes (como eu) ou quer compreender melhor o humor norte-americano daquele período, o documentário é uma experiência valiosa. Mesmo sem mergulhar em todas as contradições de seu protagonista, ele reafirma algo que o público sempre soube: John Candy era, antes de tudo, impossível de não gostar. No final, o doc soa mais como uma carta de amor do que um retrato completo.

Nota 7.