A seção Discos Essenciais tá especial e um pouco diferente. O quarteto Escafandristas, formado por Alice Passos, Luisa Lacerda, Renato Frazão e Thiago Amud, escolhe os álbuns de Chico Buarque que mais os influenciaram.
A opção por escolher só obras de Chico se justifica. Nos dias 31 de julho e 1º de agosto de 2026, sexta e sábado, às 20h, o grupo sobe ao palco da Acaso Cultural, no Rio de Janeiro, para apresentar o show de lançamento de seu primeiro álbum, dedicado integralmente ao repertório do compositor.
Confira a bélissima seleção e, abaixo, mais detalhes da apresentação do quarteto.
Alice Passos - As Cidades (1998)
Sinceramente não lembro bem se foi “As cidades” ou “Paratodos” o primeiro disco do Chico que botei pra ouvir no meu disk man (comprado com meu primeiro cachê da vida ao gravar num disco do Quarteto em Cy). Mas sei que os dois me marcaram muito, talvez por terem sido os primeiros que ouvi repetidamente, lendo ficha técnica etc. Já que tinha que escolher um, fui nesse.
Acho que sei cantar todas as 11 faixas de cor e é capaz de cantar cada 2a voz, fazer cada convenção ritmica de tanto que ouvi esse disco.
As coisas que eu diria desse disco também tem em muitos discos do Chico: arranjos ótimos, letras e melodias lindas, roteiro.
Mas não sei se outro é tão perfeito. Não sei se tem outro (salvo “Paratodos”) que eu sou apaixonada por todas as músicas, do início ao fim. Mas sei que algo muito pessoal e confesso que to escrevendo isso sem ver todas as faixas dos outros discos que tanto ouvi.
Tem parcerias únicas: Guinga e Dominguinhos em “Você, você” e “
Xote de Navegação”, músicas pelas quais sou absolutamente apaixonada. Acho que esta é também a única parceria do Chico com Hermínio Bello de Carvalho, em “Chão de Esmeraldas”.
“Cecília”, com Luiz Claudio Ramos é um primor. É um disco de afeto, pra mim.
Luisa Lacerda: Construção (1971)
Um disco essencial na minha vida, muito antes de eu decidir me tornar musicista profissional. Eu era pré adolescente quando ganhei de presente um tocador de CD portátil e podia então ouvir meus discos no meu quarto. Pra alem dos discos típicos de juventude que passeavam pelo pop-rock e metal americano, levei o disco o pra ouvir sozinha porque queria entender melhor o "frisson" que meus pais tinham com aquele disco específico.
Não demorei pra compreender: na primeira faixa, "Deus lhe pague", eu ja me deparei com uma força que nenhuma banda de metal que eu escutava conseguia transmitir, e ainda me soava melhor, por ser em bom português. As letras contundentes do Chico e os arranjos do Rogério Duprat me abriram um novo mundo. Ainda que eu fosse muito jovem para entender com profundidade todos os temas que envolviam aquela obra, lembro de pensar que músicas como "Olha Maria" eram canções impossiveis de serem feitas, de tão perfeitas.
Depois da última faixa, "Acalanto", apertei o botão de repeat diversas vezes; eu nao queria mais sair daquele disco (e acho que nunca saí).
Thiago Amud: Vida (1980)É um disco exuberante. Impressiona a quantidade de grandes canções, dessas que definem Chico diante de um público mais vasto: “Bastidores”, “Morena de Angola”, “Deixa a Menina”, “Bye Bye Brasil”, “Eu Te Amo”, além da própria canção-título.
Outra coisa que chama a atenção é que quase todo o repertório foi composto por encomenda, seja para trilhas de cinema e teatro, seja para outros intérpretes. E só agora atinei que não há nenhuma canção de “Vida” no repertório dos Escafandristas, exceto uma breve citação de “Eu Te Amo” em “Futuros Amantes”. Fica aqui meu protesto indignado.
Renato Frazão - O Grande Circo Místico (com Edu Lobo)
Quando eu tinha uns 14 anos, meu professor de violão, percebendo que eu estava ficando obcecado pela tal de MPB, disse que eu precisava conhecer o melhor disco já feito nesse segmento: O Grande Circo Místico.
Àquela altura, eu já devorava tudo de Edu e Chico que me caía nas mãos, mas esse tinha passado abaixo do meu radar, e lá fui ouvir o disco recomendado. Desde então, tendo a concordar com ele (hoje, o amigo e vizinho André Campello). Não parece haver nada em O Grande Circo Místico que não tenha sido cuidadosamente concebido para torná-lo um clássico absolutamente fundamental e instantâneo na discografia da música brasileira.
A partir de um convite bastante inusitado, Edu Lobo e Chico Buarque passam a operar truques de mágica em sequência. São canções baseadas no poema homônimo de Jorge de Lima, mas a liberdade (ou infidelidade) com que tratam os temas, as personagens e a trama ultrapassa o próprio poema. Como se não bastasse, arregimentaram intérpretes que parecem ter nascido para cantar aquelas canções. Gil em "Sobre Todas as Coisas", Simone em "Meu Namorado", Gal Costa em "A História de Lily Braun", Tim Maia em "A Bela e a Fera" e, claro, Milton Nascimento em "Beatriz", uma gravação daquelas de pendurar na parede da sala. E ainda com arranjos de Chiquinho de Moraes.
Sim, este é o disco que eu levaria para a ilha deserta e ouviria para sempre. Mesmo sabendo que para sempre é sempre por um triz.
Show no Rio de JaneiroCriado em 2024 para celebrar os 80 anos de Chico Buarque, o espetáculo Escafandristas vem conquistando público e crítica ao propor leituras originais de clássicos do compositor, preservando suas melodias enquanto explora novas possibilidades harmônicas, rítmicas e vocais.
O sucesso do projeto levou o grupo a uma audição especial para o próprio Chico Buarque e sua família, que receberam o trabalho com entusiasmo. Em 2026, após temporadas de casas lotadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, os Escafandristas consolidaram a iniciativa com a gravação de um álbum de 15 faixas no estúdio da Biscoito Fino. O disco reúne participações históricas, incluindo o cineasta Ruy Guerra e o próprio Chico Buarque, além de um coro formado por filhas, irmãs e netas do compositor.
No palco, os músicos utilizam violões, baixo, flauta e discretas intervenções percussivas para revisitar canções emblemáticas como “Construção”, “Cotidiano” e “Futuros Amantes” — esta última inspirando o nome do grupo. O repertório também ilumina obras menos conhecidas, como “Frevodiabo”, “Morro Dois Irmãos”, “A Ostra e o Vento” e “Assentamento”, revelando novas camadas de uma das produções mais importantes da música brasileira.
Serviço
Escafandristas cantam Buarque
Data: 31 de julho e 1º de agosto de 2026
Horário: 20h
Ingressos a partir de R$ 55 pelo Sympla
Acaso Cultural
Rua Vicente de Sousa, 16 – Botafogo, Rio de Janeiro
Instagram: @acasocultural | Site: www.acasocultural.com