Longa Sombra da Normandy: O retorno do RPG espacial com Exodus e The Expanse


Novos jogos devem agradar os fãs ao resgatarem fórmula de sucesso, apostando em bagagens de estúdio totalmente diferentes. Foto Unsplash.

Por Redação CSC

A BioWare encerrou a trilogia clássica de Mass Effect em 2012 e deixou para trás um vácuo que ninguém preencheu. A indústria correu atrás de jogos como serviço e mundos abertos cheios de tarefas burocráticas, aposentando aquela fórmula clássica. Você lembra bem: tiro em terceira pessoa protegido na mureta, dois parceiros combinando habilidades táticas e uma nave militar que funcionava como base para resolver dilemas morais sem volta. Quando Mass Effect: Andromeda tentou reviver a marca em 2017, patinou em problemas técnicos e texto sem alma. Depois dele, o RPG espacial de alto orçamento com foco em esquadrão virou peça de museu.

Mas parece que isso está para mudar, graças a dois projetos que resolveram resgatar a mesma fórmula, apostando em bagagens de estúdio totalmente diferentes como Exodus e The Expanse: Osiris Reborn.

O primeiro carrega o DNA direto da era de ouro da BioWare. Em desenvolvimento pela Archetype Entertainment, estúdio da Wizards of the Coast, o jogo reúne veteranos de peso. O comando é de James Ohlen, diretor de design de Baldur’s Gate e do cultuado Star Wars: Knights of the Old Republic, com roteiro de Drew Karpyshyn, a mente por trás de Mass Effect 1 e 2. Para desenhar a física desse universo, a equipe chamou Peter F. Hamilton. Autor britânico com dezenas de livros na praça, ele assina a Void Trilogy (inédita por aqui) e o épico Estrela de Pandora, lançado no Brasil pela editora Landmark.

Hamilton levou a parceria tão a sério que escreveu romances oficiais ambientados no universo do game, começando por Exodus: The Archimedes Engine (2024) e expandindo a saga no anunciado Exodus: The Helium Sea.

O contraponto é The Expanse: Osiris Reborn, que adapta um universo consagrado. A saga literária começou em 2011 com Daniel Abraham e Ty Franck sob o pseudônimo James S.A. Corey. Curiosamente, a intriga entre Terra, Marte e Cinturão não nasceu nos livros, mas de uma campanha caseira de RPG de mesa e rascunhos de um MMO cancelado, antes de virar série de TV de sucesso. No Brasil, o volume de estreia, Leviatã Desperta, saiu pela Aleph em 2017, e o RPG de mesa da Green Ronin chegou pela Jambô.

Quem aceitou o desafio de criar essa aventura de ação foi a Owlcat Games. O estúdio russo ficou famoso no PC por cRPGs (os clássicos RPGs para computador focados em regras de mesa e fichas numéricas), como Pathfinder e Warhammer 40,000: Rogue Trader. Abandonar a visão aérea em turnos e partir para a terceira pessoa gerou espanto. Agora, a equipe precisa fazer a mira responder rápido nos controles analógicos. A própria desenvolvedora admitiu que a trilogia clássica da BioWare é o espelho de design para essa travessia.

Ambos os títulos seguem a mesma dinâmica: você lidera o avanço em campo com dois companheiros táticos e volta para a fragata a fim de conversar com a tripulação, destravar arcos pessoais e engatar romances sem travas de gênero. A diferença real mora em como cada um aplica a ciência à narrativa e ao combate.

Em Exodus, a humanidade vive refugiada sob o jugo dos Celestiais, seres pós-humanos hostis e tecnologicamente avançados. No papel de Jun Aslan, você precisa pilhar relíquias alienígenas para salvar sua colônia. Na prática, esses artefatos dão poderes de manipulação de gravidade. É a resposta direta aos poderes bióticos de Mass Effect, arremessando inimigos no ar. O motor dramático é a dilatação do tempo. Viajar perto da velocidade da luz custa caro, pois semanas fora equivalem a décadas em casa. Quando você retorna de uma missão, governos caíram, amigos de infância morreram de velhice e estranhos comandam as ruas.

Já The Expanse: Osiris Reborn mergulha na ficção científica dura e resgata a tradição dos cRPGs de criar seu próprio agente do zero. A serviço da Pinkwater Security, você investiga uma crise no Cinturão e tromba com a perigosa protomolécula. Esqueça escudos invisíveis que recarregam sozinhos na mureta. O tiroteio exige controle do recuo das armas de fogo, munição balística contada e pânico real do vácuo. Se uma bala perfura a fuselagem da cabine, a sala perde oxigênio na hora. Em gravidade zero, a inércia faz o corpo deslizar e quebra o conforto da cobertura tradicional. Hackers do esquadrão entram em ação à distância para emperrar rifles inimigos. O texto foge do salvador cósmico: você é só um mercenário descartável no fogo cruzado entre frotas da Terra, fuzileiros de Marte e guerrilheiros do Cinturão.

A cobertura de veículos como IGN, PC Gamer e GamesRadar escancara o tamanho da aposta. A imprensa estrangeira enxerga Exodus como a prova real de que Karpyshyn e Ohlen conseguem entregar o impacto de Mass Effect 2 sem a máquina da Electronic Arts. No caso da Owlcat, ninguém discute a habilidade do estúdio para tramas políticas densas, mas a dúvida é se os russos entregam uma resposta motora de tiro precisa no console.

O calendário exige paciência. Exodus mira o lançamento no horizonte de 2027 para PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC, com a Archetype soltando demonstrações técnicas de seu motor gráfico. Já Osiris Reborn é um mistério: a Owlcat trabalha em ritmo ativo, mas não crava o mês exato, confirmando apenas versões para a atual geração e PC. A corrida para ocupar o trono de Shepard segue viva, com os dois estúdios preferindo segurar o código a entregar um jogo pela metade.

Essa disputa prova que o público nunca cansou de boas histórias espaciais com esquadrão no controle. A Archetype testa se a fórmula consagrada ganha força com o drama do tempo relativístico, enquanto a Owlcat aposta que o perigo da física realista e a intriga política seguram a ação sem precisar de poderes mágicos. O espaço finalmente voltou a ser perigoso de verdade.