Todo mundo sabe que o Metallica, disco após disco, tenta se reiventar (foi assim com o Black Album, depois com Load), mas, de longe, Lulu, em parceria com Lou Reed, é o mais desconfortável projeto dos caras.
Quando o disco chegou às lojas, em 2011, a reação foi praticamente unânime: o que diabos a banda estava fazendo? A resposta talvez seja justamente o problema, e, ao mesmo tempo, a maior qualidade do disco.
Lulu não é um álbum do Metallica no sentido tradicional (tanto que só recentemente foi adicionado ao catálogo da banda nos streamings de áudio). Também não é um disco solo de Lou Reed com uma banda de metal fazendo acompanhamento. É um encontro estranho, desconfortável e, em vários momentos, propositalmente difícil de digerir. E talvez seja justamente por isso que ele tenha sido tão incompreendido, pra não dizer odiado.
Inspirado nas peças Earth Spirit e Pandora's Box, de Frank Wedekind, Lou Reed constrói uma narrativa marcada por obsessão, sexo, violência, decadência e relações destrutivas. O Metallica entra nesse universo com guitarras pesadas, bateria gigantesca e aquele peso característico.
O que, em diversos momentos, soa como algo desconexo. E aí está o ponto. As músicas são longas. Lou Reed não canta exatamente — ele declama, narra, provoca e cospe as palavras. Lars Ulrich e James Hetfield não estão ali para construir refrões radiofônicos. Kirk Hammett e Robert Trujillo criam uma parede sonora que muitas vezes parece existir para acompanhar o texto, e não para disputar protagonismo com ele.
Grande parte da rejeição ao álbum nasceu de uma expectativa simples: Metallica fazendo Metallica. Só que a banda decidiu fazer outra coisa. Em vez de riffs pensados para levantar uma arena, temos estruturas que se desenvolvem lentamente. Em vez de refrões fáceis de cantar, temos monólogos. Em vez de uma narrativa tradicional, existe uma espécie de peça teatral transformada em rock pesado.
“The View” talvez seja o exemplo mais evidente. A faixa começa pesada e vai crescendo até chegar ao famoso encontro vocal entre Reed e James Hetfield. É uma música estranha, exagerada e teatral. E justamente por isso é uma das melhores portas de entrada para entender o projeto.
Mas reduzir o disco a uma parceria malsucedida é ignorar o contexto da obra. Reed nunca foi um artista interessado em entregar aquilo que o público esperava. Sua carreira inteira foi construída em torno da experimentação, da provocação e de personagens moralmente desconfortáveis. Lou Reed estava sendo Lou Reed.
O inesperado foi o Metallica aceitar entrar nesse território. O peso está em outro lugar, mas ele não está apenas nas guitarras. Está na atmosfera e na interpretação de Reed, nas letras desconfortáveis. Está na sensação de que algumas músicas parecem estar prestes a desmoronar.
“Junior Dad”, por exemplo, encerra o álbum com mais de 19 minutos e está muito longe da estrutura tradicional de uma música de metal. É lenta, hipnótica e quase apocalíptica.
E talvez seja essa a chave para entender o disco inteiro: não é um álbum que pede para ser consumido rapidamente. Ele exige paciência.
O problema é que Lou e o Metallica estavam falando linguagens diferentes. E, quando duas linguagens tão distintas se encontram, o resultado dificilmente será confortável.
Para quem vinha do Velvet Underground e da carreira solo de Reed, o Metallica poderia parecer barulhento demais.
Para quem vinha de Master of Puppets, ...And Justice for All ou Ride the Lightning, Lou Reed poderia parecer deslocado demais. E talvez seja exatamente aí que o álbum encontre sua identidade. Lulu não tenta construir uma ponte perfeita entre os dois universos. Ele simplesmente coloca os dois no mesmo palco e deixa o choque acontecer.
Um disco ruim? Não. Um disco fácil? Definitivamente não.
Lulu tem momentos cansativos, excessos e decisões que podem afastar até ouvintes acostumados com música experimental. A duração também pesa. Algumas faixas parecem se prolongar além do necessário.
Mas existe uma diferença enorme entre um disco que não funciona para você e um disco que não tem nada a dizer. Lulu tem muito a dizer.
E continua sendo um dos projetos mais corajosos da carreira do Metallica justamente porque a banda aceitou abrir mão da segurança.
Mais de uma década depois, talvez seja possível ouvir o álbum sem a obrigação de decidir se ele é “bom” ou “ruim”. Ele é estranho, mas extremamente pesado.
Talvez o grande problema de Lulu tenha sido ter sido lançado com o nome Metallica estampado na capa. Se fosse apresentado apenas como um projeto experimental de Lou Reed acompanhado por uma banda de metal, talvez a conversa tivesse sido outra.
Mas a história não funciona assim. O Metallica colocou seu nome no projeto, Lou Reed colocou sua personalidade. E o resultado foi um dos discos mais divisivos da história do heavy metal.
Hoje, Lulu continua longe de ser unanimidade, e, cá entre nós, ainda bem, porque algumas obras não existem para agradar todo mundo. Existem para provocar. E, gostando ou não, Lulu conseguiu fazer exatamente isso.
Abaixo, ouça Brandeburg Gate, a minha favorita do álbum.