Nevermind completa 35 anos marcado na história como o instante em que o som do porão atropelou o pop corporativo e assumiu o topo das paradas. Em 11 de janeiro de 1992, as paradas da Billboard 200 registraram uma mudança brusca quando três sujeitos desgrenhados do Estado de Washington tiraram o milionário Dangerous, de Michael Jackson, do primeiro lugar. A Geffen Records esperava vender 45 mil cópias apenas para pagar os custos de estúdio e dar algum retorno de royalties ao Nirvana. O disco ultrapassou 30 milhões de unidades vendidas pelo planeta e, diante desses números, as bandas de hard rock e hair metal perderam espaço imediato nas rádios e na programação diária da MTV. O mercado fonográfico correu em peso para as garagens do Noroeste americano com contratos na mão, procurando jovens bandas com o som e a atitude certos para dialogar com o público que começava a ditar as regras daquela década.
Essa rodagem vinha da experiência do grupo no circuito independente. Três anos antes, Kurt Cobain e Krist Novoselic gravaram Bleach pelo selo Sub Pop com o produtor Jack Endino, gastando exatos 606 dólares e 17 centavos. O dinheiro saiu do bolso de Jason Everman, um guitarrista camarada que nem tocou nas faixas, mas ganhou foto e crédito na contracapa só para garantir que receberia o investimento de volta. A virada técnica aconteceu quando Dave Grohl assumiu a bateria. Grohl vinha do Scream, grupo veterano do circuito hardcore veloz de Washington D.C., e batia nos tambores com uma pressão física que Cobain e Novoselic nunca tinham experimentado na sala de ensaio. Junte essa pegada reta e veloz à paixão descarada que Cobain tinha pelas harmonias vocais dos Beatles e o som da banda finalmente encontrou o equilíbrio que faltava.
Para comandar a mesa no Sound City Studios, em Los Angeles, o trio escalou Butch Vig. Na época, Vig trazia no currículo a produção seca do Killdozer e as guitarras pesadas de Gish, a estreia do Smashing Pumpkins. Nos bastidores, o produtor precisou negociar a desconfiança de Cobain, que encarava técnicas comuns de gravação como concessão comercial e se recusava a registrar duas vezes a mesma linha de voz.
Vig convenceu o vocalista ao lembrar que John Lennon dobrava as próprias vozes em quase todas as fitas dos Beatles. Kurt ouviu, concordou na hora e voltou para o microfone. A gravadora entregou a mixagem final para Andy Wallace, que tinha acabado de acertar o som rápido e cortante do Slayer em Reign in Blood. Cobain declarou para a imprensa musical da época que o resultado soava polido além da conta, mas foi justamente essa definição de frequências que fez as guitarras estourarem nas transmissões de rádio FM sem perder o impacto das palhetadas.
A dinâmica das faixas veio emprestada do modelo que o Pixies estabeleceu na virada dos anos 1980, algo que Kurt sempre admitiu em entrevistas. A fórmula consiste em amarrar a estrofe em volume baixo, sustentada pelo baixo melódico de Novoselic e uma guitarra quase limpa, para depois explodir a música inteira com distorção pesada no refrão. "Smells Like Teen Spirit" segue essa cartilha à risca em cima de quatro acordes diretos. Em "Come as You Are", a introdução traz a oscilação do pedal de chorus Small Clone, repetindo o desenho melódico de "Eighties", clássico pós-punk do Killing Joke.
Quando os instrumentos elétricos saíram da frente em "Polly", a gravação revelou o lado acústico e desconcertante do repertório. Kurt usou um violão Stella de doze cordas comprado em uma loja de penhores por vinte dólares, que mal segurava a afinação, usava encordoamento desgastado e precisou de tiras de fita adesiva coladas nas tarraxas para não afrouxar no meio do take.
O tamanho do sucesso empurrou o Nirvana para uma reação defensiva quase imediata. Incomodada com o assédio comercial e a superexposição na mídia, a banda recrutou o engenheiro Steve Albini para gravar o álbum seguinte, In Utero, trabalhando com captação ao vivo em sala e microfones espalhados pelo chão para recuperar a aspereza dos palcos. A manobra serviu para reafirmar a identidade do grupo, mas o impacto cultural de 1991 já era definitivo nas lojas e nas ruas. Trinta e cinco anos depois, a postura de quem mudou a direção do mercado fonográfico sem pedir licença segue intacta no sarcasmo que abre o disco com "Well, whatever, never mind".