Por redação CSC
No primeiro domingo de outubro de 2026, o Brasil repete o seu ritual mais barulhento sob uma chuva de santinhos no asfalto, jingles no rádio e marqueteiros suando frio para transformar candidatos em estadistas. A propaganda oficial vende a data como a festa da democracia, mas quem acompanha cinema sabe que o jogo bruto começa bem antes da votação. Para marcar essa reta final de campanha, o CSC abre uma série em quatro partes sobre como a ficção tratou eleições, bastidores e paranoias de poder pelo mundo.
Começamos olhando para o nosso próprio cercadinho. O cinema brasileiro nunca teve paciência com historinhas ingênuas sobre política institucional. Quando a câmera apontou para o palanque, mostrou um país em que a miséria rende voto, a fé vira moeda de troca e a violência atropela o debate público. Longe de aplaudir salvador da pátria, estas cinco ficções (mais uma lembrança incômoda recente) mostram a conta que sobra para o eleitor pagar.
O jogo político no nosso próprio quintal
Terra em Transe (1967)
Glauber Rocha lançou o filme logo após o golpe de 1964 e driblou a censura graças aos prêmios recebidos no Festival de Cannes. Na fictícia Eldorado, o jornalista Paulo Martins (Jardel Filho) circula entre os donos do poder e se vê no meio de dois projetos podres.
De um lado está Porfírio Diaz (Paulo Autran), líder conservador que usa procissões e cruzes na praia para amedrontar o povo. Do outro surge Dom Felipe Vieira (José Lewgoy), governador populista que discursa de camisa aberta, chora abraçado aos eleitores e promete reformas que nunca vai cumprir enquanto negocia verbas com o barão de mídia Júlio Fuentes (Paulo Gracindo). É o retrato da farsa de comício, onde o discurso popular serve apenas para fechar acordos de gabinete.
Direção e roteiro: Glauber Rocha. Elenco: Jardel Filho (Paulo Martins), Paulo Autran (Porfírio Diaz), José Lewgoy (Dom Felipe Vieira), Glauce Rocha (Sara), Paulo Gracindo (Dom Júlio Fuentes). Onde assistir: Globoplay e Itaú Cultural Play.
O Homem da Capa Preta (1986)
Sérgio Rezende levou às telas a trajetória de Tenório Cavalcanti (José Wilker), político que despontou na Baixada Fluminense nos anos 1950 empunhando a metralhadora alemã apelidada de "Lurdinha". Com o apoio da esposa Matilde (Marieta Severo), Tenório enfrenta os caciques tradicionais do Rio usando a violência como cabo eleitoral. Ele mata pistoleiros rivais na rua e oferece proteção a uma população abandonada pelo Estado. O filme faturou o Festival de Brasília mostrando como o coronelismo urbano funciona na prática: quem sofre com a falta de segurança acaba elegendo o próprio sujeito armado que dita a lei do bairro.
Direção: Sérgio Rezende. Roteiro: Sérgio Rezende e Tairone Feitosa. Elenco: José Wilker (Tenório Cavalcanti), Marieta Severo (Matilde), Paulo Villaça (Venâncio), Jonas Bloch (Adolfo). Onde assistir: Globoplay.
Eles Não Usam Black-Tie (1981)
Direção: Leon Hirszman. Roteiro: Leon Hirszman e Gianfrancesco Guarnieri, adaptando a peça do próprio Guarnieri. Elenco: Gianfrancesco Guarnieri (Otávio), Carlos Alberto Riccelli (Tião), Fernanda Montenegro (Romana), Bete Mendes (Maria), Milton Gonçalves (Bráulio). Onde assistir: Globoplay.
Vencedor do grande prêmio do júri em Veneza, o longa acompanha a tensão das greves operárias no ABC paulista. A disputa pelo voto acontece dentro da assembleia sindical. Otávio é o militante histórico que já conheceu a cadeia por causa da luta por salários, enquanto seu filho Tião descobre que a namorada Maria está grávida. Com o casamento marcado e a corda no pescoço, o jovem fura a greve para não perder o emprego. O filme coloca o dedo na ferida da sobrevivência: mostra como a falta de dinheiro divide as famílias e enfraquece a mobilização dos trabalhadores diante da diretoria da fábrica e da polícia na porta.
Divino Amor (2019)
Gabriel Mascaro projeta um Brasil em 2027 dominado por cultos com música eletrônica e batismos em fila de carros. Dira Paes interpreta Joana, servidora de cartório que usa o carimbo público para barrar divórcios e encaminhar casais para terapias religiosas com troca de parceiros. O grande mérito da obra é mostrar que o fanatismo não precisa de golpe militar para mandar no país. Basta ocupar os guichês de atendimento, os tribunais de família e a burocracia do dia a dia, tornando a escolha eleitoral uma simples confirmação do controle sobre os costumes.
Direção: Gabriel Mascaro. Roteiro: Gabriel Mascaro, Rachel Ellis, Esdras Bezerra e Lucas Paraizo. Elenco: Dira Paes (Joana), Julio Machado (Danilo), Emílio de Mello (Pastor), Mariana Nunes (Lígia). Onde assistir: Globoplay e Apple TV.
Vitória Régia (2026)
Produzido pelo movimento indígena, o curta imagina a Amazônia ocupada militarmente após um avanço autoritário no país. Alice Braga vive uma repórter que investiga queimadas criminosas e encontra a resistência dos povos originários liderada por Naiá (Ywyzar Tentehar). A história liga a destruição da floresta aos caixas de campanha política: mostra que a grilagem e a violência na mata abastecem os mesmos interesses econômicos que financiam candidatos nas grandes capitais.
Direção: Denis Kamioka (Cisma). Roteiro: Carol Pires e Fábio Leal. Elenco: Alice Braga (Carol), Ywyzar Tentehar (Naiá). Onde assistir: YouTube.
Menção honrosa: Bacurau (2019)
O filme pernambucano acompanha um vilarejo do sertão que some dos mapas de GPS e tem a água cortada. No meio do sufoco chega Tony Júnior, o prefeito em campanha de reeleição, jogando mantimentos vencidos, remédios controlados e livros rasgados do alto de um caminhão de som. O deboche vira pesadelo quando os moradores descobrem que o político entregou a cidade a atiradores estrangeiros. O desfecho com o prefeito castigado pelos moradores é a resposta contra quem trata o eleitor como mercadoria barata.
Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Elenco: Bárbara Colen (Teresa), Sônia Braga (Domingas), Thomas Aquino (Pacote), Silvero Pereira (Lunga), Thúlio Bick (Tony Júnior). Onde assistir: Globoplay e Telecine.