Dando continuidade aos nosso especial, saímos do coronelismo de calçada nacional para investigar o cinema americano que trocou a pompa de Washington pelo horror conspiratório e pela paranoia urbana. Foto: Divulgação.
Por redação CSC
Depois de um final de semana de primeiro turno difícil de engolir (sim, o CSC é de esquerda), voltamos a segunda parte do nosso especial da relação do cinema com as eleições.
No primeiro texto, passamos o rodo nas maquinações do nosso próprio quintal, de Glauber Rocha aos cartórios de Gabriel Mascaro. Agora a bússola aponta para os Estados Unidos, mas sem passar perto de discursos patrióticos no Salão Oval ou de dramas protocolares sobre os fundadores da pátria estadunidense.
Os filmes que realmente tocaram na ferida política do país preferiram a sujeira das ruas, as salas de espionagem clandestina e o medo concreto de que o sistema simplesmente moa quem está embaixo. Em vez de debates comportados na TV, reunimos cinco longas em que a corrida pelo poder descamba para a chantagem, a quebra psicológica e o tiro seco.
A sombra do gatilho: paranoia urbana e horror conspiratório nos EUA
Taxi Driver (1976)
Scorsese e o roteirista Paul Schrader rodaram o filme no verão nova-iorquino de 1975, em meio a uma greve de lixeiros que transformou a cidade num forno a céu aberto, faturando a Palma de Ouro em Cannes. Travis Bickle roda a noite com seu táxi, anestesiado pela insônia e pela solidão. A política bate à sua porta na figura do senador Charles Palantine (Harris), candidato à presidência que promete "limpar" o país em comícios lotados. Travis (De Niro) se aproxima da voluntária de campanha Betsy, mas a rejeição amorosa serve de gatilho para o colapso. O ex-fuzileiro raspa o cabelo, compra revólveres no mercado negro e vai ao comício de Palantine com a arma no casaco. Scorsese mostra como o circo eleitoral atrai a loucura das ruas até o limite do atentado.
Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader. Elenco: Robert De Niro (Travis Bickle), Cybill Shepherd (Betsy), Peter Boyle (Wizard), Jodie Foster (Iris), Leonard Harris (Senador Charles Palantine). Onde assistir: Netflix e Max.
Sob o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate, 1962)
Lançado pouco antes da Crise dos Mísseis de Cuba, o filme teve a exibição suspensa por anos após o assassinato de John F. Kennedy. Durante a Guerra da Coreia, soldados americanos sofrem lavagem cerebral comandada por oficiais soviéticos e chineses. Raymond Shaw (Harvey) volta aos Estados Unidos como herói condecorado, sem saber que foi condicionado a matar qualquer alvo ao ver a dama de ouros em uma mesa de cartas. A armadilha é controlada em casa pela própria mãe, vivida por Angela Lansbury, que usa o transe do filho para eliminar rivais e empurrar o marido fantoche rumo à Casa Branca na convenção partidária. É o retrato do candidato de fachada operado por interesses ocultos.
Direção: John Frankenheimer. Roteiro: George Axelrod, adaptando o romance de Richard Condon. Elenco: Frank Sinatra (Major Bennett Marco), Laurence Harvey (Sargento Raymond Shaw), Angela Lansbury (Sra. Iselin), James Gregory (Senador John Iselin). Onde assistir: Apple TV e Prime Video (aluguel).
A Conversação (The Conversation, 1974)
Coppola filmou este suspense entre os dois primeiros volumes de O Poderoso Chefão, ganhando a Palma de Ouro semanas antes de as escutas ilegais do escândalo de Watergate derrubarem Richard Nixon. Harry Caul (Hackmann) é um técnico de espionagem paranoico que vive atrás de três trancas e não quer saber da vida pessoal de quem paga a conta. Ao gravar uma conversa banal de um casal numa praça de São Francisco para um conglomerado empresarial, ele isola um trecho de áudio que indica uma trama de assassinato. A história desmonta a pose do técnico que diz apenas cumprir tarefas, porque Caul percebe que a informação grampeada alimenta esquemas corporativos de eliminação física onde a lei não entra.
Direção e roteiro: Francis Ford Coppola. Elenco: Gene Hackman (Harry Caul), John Cazale (Stan), Allen Garfield (William P. Moran), Cindy Williams (Ann), Harrison Ford (Martin Stett). Onde assistir: Prime Video e Netflix.
Na Hora da Zona Morta (The Dead Zone, 1983)
Cronenberg adaptou o livro de Stephen King criando uma ficção sóbria sobre premonição e responsabilidade cívica. Johnny Smith (Wlklen) passa cinco anos em coma após bater o carro e acorda com o poder de ver o destino de quem toca com as mãos. O tormento vira questão nacional quando ele encosta na mão de Greg Stillson (Sheen), um empresário que disputa o Senado vestindo capacete de obra e jogando comida para os eleitores. Ao tocar o político, Johnny enxerga o sujeito vencendo as eleições presidenciais e iniciando uma guerra atômica. O roteiro corta rodeios e coloca o protagonista diante de um dilema direto, forçando-o a decidir se puxa o gatilho antes de a urna abrir.
Eles Vivem (They Live, 1988)
Carpenter chamou o astro de wrestling Roddy Piper para rodar uma ficção científica de baixo orçamento em resposta às políticas conservadoras dos anos 1980. John Nada é um peão da construção civil sem teto que acha uma caixa de óculos escuros em uma paróquia abandonada. Com as lentes no rosto, as placas de rua e os jornais exibem ordens como "Compre", "Durma" e "Cale a boca". Para piorar, os ricaços que financiam os comícios e mandam na cidade são alienígenas com cara de caveira que cooptaram as elites humanas com promessas de dinheiro. Sem paciência para discursos parlamentares, Carpenter trata o conluio eleitoral na base do soco no queixo e tiros de escopeta.
Se na lista brasileira o problema é o coronel que manda e desmanda, aqui o cinema americano mostra a engrenagem operando no controle psicológico do sujeito. Nada resume melhor essa postura do que a frase disparada pelo próprio John Nada antes de abrir fogo em Eles Vivem: "Vim aqui mascar chiclete e chutar bundas... e o meu chiclete acabou".
Direção: John Carpenter. Roteiro: John Carpenter (como Frank Armitage), baseado no conto de Ray Nelson. Elenco: Roddy Piper (John Nada), Keith David (Frank Armitage), Meg Foster (Holly Thompson). Onde assistir: Apple TV e Prime Video (aluguel).
