Por redação CSC
Depois de revirar o coronelismo no Brasil e a paranoia conspiratória nos Estados Unidos, a nossa série sobre como o cinema se relaciona com processos eletivos cruza o oceano. Fora da rota de Hollywood, o cinema também abordou a política por uma lupa: máfia controlando votos em Roma, atentado político mascarado de batida de trânsito em Atenas e magnatas ingleses faturando alto com ditaduras. Reunimos cinco produções para comprovar que o submundo da política fala vários idiomas.
3. Fora do circuito ianque: a política dos outros também é complexa
Z (1969)
Costa-Gavras filmou na Argélia logo após a Junta Militar dos Coronéis dar o golpe na Grécia. Um deputado pacifista vivido por Yves Montand lidera um protesto antimilitarista e acaba atropelado em praça pública por um triciclo motorizado. A polícia tenta arquivar tudo como acidente comum, mas o juiz de instrução interpretado por Jean-Louis Trintignant decide fazer o trabalho a sério. Ouvindo testemunhas, ele descobre que a chefia policial recrutou capangas de extrema-direita para executar o atentado. No fim, o filme lista o que a ditadura baniu no país: de minissaias e Beatles ao ensino de sociologia.
Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Jorge Semprún e Costa-Gavras, baseado no livro de Vassilis Vassilikos. Elenco: Yves Montand (O Deputado), Jean-Louis Trintignant (O Juiz de Instrução), Irene Papas (Helene), Jacques Perrin (O Fotógrafo). Onde assistir: Reserva Imovision e Prime Video.
O Dia da Coruja (Il giorno della civetta, 1968)
Damiano Damiani expôs a aliança direta entre o crime siciliano e o parlamento italiano. Franco Nero é Bellodi, capitão dos carabineiros que investiga a execução de um empreiteiro e esbarra no cacique mafioso Don Mariano Arena. A apuração revela o negócio central da Cosa Nostra: fraudar verbas de obras públicas e entregar currais eleitorais fechados para deputados em Roma. Quando o capitão cerca os mandantes, ordens ministeriais mandam transferir o militar de cidade para engavetar o inquérito.
Direção: Damiano Damiani. Roteiro: Damiano Damiani e Ugo Pirro, adaptando Leonardo Sciascia. Elenco: Franco Nero (Capitão Bellodi), Claudia Cardinale (Rosa Nicolosi), Lee J. Cobb (Don Mariano Arena). Onde assistir: Oldflix e Belas Artes à la Carte.
Il Divo (2008)
Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, o filme acompanha Giulio Andreotti, que chefiou a Itália sete vezes. Toni Servillo encarna o premiê com frieza cadavérica, andando por palácios vazios enquanto aliados aparecem executados no asfalto. Sorrentino embala o mandato com guitarras e batidas eletrônicas, revelando a rotina de um governante que pactua com chefes mafiosos para garantir maiorias parlamentares. Questionado sobre os assassinatos, o político responde com o cinismo de quem trata o crime como burocracia do poder.
Direção e roteiro: Paolo Sorrentino. Elenco: Toni Servillo (Giulio Andreotti), Anna Bonaiuto (Livia Danese), Giulio Bosetti (Eugenio Scalfari). Onde assistir: MUBI e Prime Video (aluguel).
O Presidente (The President, 2014)
O iraniano Mohsen Makhmalbaf filmou na Geórgia esta história sobre a queda de autocratas. O ditador de um país fictício perde o controle após uma revolta popular armada. Sem tempo de fugir de avião, ele veste trapos, pega um violão e finge ser músico de estrada para cruzar o interior a pé com o neto. Na fuga, ele encara a miséria e a violência policial que ajudou a plantar por décadas. A multidão derruba o déspota, mas os novos donos do poder assumem os gabinetes repetindo os mesmos abusos contra o povo.
Direção: Mohsen Makhmalbaf. Roteiro: Mohsen Makhmalbaf e Marziyeh Meshkini. Elenco: Misha Gomiashvili (O Presidente), Dachi Orvelashvili (O Neto), Ia Sukhitashvili (A Esposa). Onde assistir: Reserva Imovision.
Um Homem de Sorte (O Lucky Man!, 1973)
Fechando a parceria do diretor com Malcolm McDowell após Se... (1968), o filme ataca as instituições britânicas. Mick Travis é um vendedor de café ambicioso que acredita nas promessas corporativas, mas vira assistente de um magnata financeiro de Londres. Sim, você leu certo: o jovem acaba envolvido no contrabando de armas químicas e caças para ditaduras africanas com aval de ministros britânicos. Enquanto o circo pega fogo, o músico Alan Price entra em cena com sua banda para cantar versos irônicos que escancaram a canalhice do livre mercado e dos tribunais.
Enquanto a política americana apela à paranoia e o Brasil convive com o coronelismo de bairro, estas obras mostram que os gabinetes pelo mundo sempre souberam atropelar o eleitor com frieza burocrática. Como canta Alan Price em Um Homem de Sorte: se topar com um homem honesto por aí, corra, porque ele certamente perdeu o juízo.
