Superficial, série da Prime Video não traz a mínimia análise comportamental dos personagens. Foto: Divulgação.
A série documental em três episódios A Mulher da Casa Abandonada, que estreou em agosto de 2025 na Prime Video, rememora os fatos do podcast de mesmo nome, criado pelo jornalista Chico Felitti, na Folha de S. Paulo.
A minissérie conseguiu despertar atenção e indignação ao revisitar um dos casos mais perturbadores já associados ao Brasil e que ganhou notoriedade em 2022, com cobertura em tempo real da mídia sensacionalista. A narrativa mostra o caso de Margarida Bonetti, que junto com seu marido Rene Bonetti, um engenheiro renomado, escravizou a empregada doméstica Hilda dos Santos por mais de 20 anos em Maryland, EUA.
O marido de Margarida foi processado, condenado e cumpriu pena por trabalho escravo moderno. A mulher, no entanto, voltou ao Brasil antes de ser julgada e, por estar em território brasileiro, não pôde ser extraditada e segue livre até hoje, já que seus crimes presecreveram pela lei brasileira.
O seriado enfatiza a crueldade e a impunidade, o que gera revolta imediata no público, além de cumprir bem o papel de provocar desconforto diante de uma realidade tão absurda. No entanto, a produção parece ter se contentado em expor o grotesco sem mergulhar no que poderia oferecer maior compreensão: o contexto psicológico dos criminosos.
Ao deixar de lado uma investigação mais profunda sobre motivações, traumas e distorções que sustentaram esse comportamento, a série perde a oportunidade de trazer uma camada analítica que ajudaria o espectador a ir além da indignação inicial.
Esse contraste fica ainda mais evidente se compararmos com o podcast de Felitti. que trouxe uma apuração minuciosa e de um olhar narrativo refinado, mergulhando nos detalhes do caso de forma investigativa, oferecendo densidade, ritmo e contexto que ampliavam a compreensão do público - coisa que não acontece no seriado, que transmite a sensação de pressa.
A narrativa corre para entregar respostas, mas sem aprofundar questões estruturais, sociais e jurídicas que orbitam o caso. O resultado é a impressão de que se trata apenas de um prelúdio desbotado do podcast de Felitti, funcionando mais como vitrine visual de um enredo já conhecido do que como obra capaz de expandir a reflexão.
Nota do crítico: 6