E chegamos a mais uma Discos Essenciais, dessa vez com dois artistas de peso da viola caipira: Cláudio Lacerta e Rodrigo Zanc.
Os músicos escolhem os álbuns que mais marcaram a vida de cada um, passando por Queen, Almir Sater, Sá & Guarabyra e muito mais. Confira!
Rodrigo Zanc
Tantos foram os que influenciaram, de alguma forma, o meu pensar e exercer a música, que fica difícil pensar em apenas cinco. Talvez sejam esses os que mais ouvi… talvez.Quando penso no meu caminho com a viola caipira como instrumento de manifestação, vejo cinco marcos que, cada um à sua época, acenderam sinais distintos no meu trabalho autoral.
Ainda menino, o álbum "Hot Space", do Queen (acho que de 1982) – me apresentou (mesmo que não tivesse essa consciência na época) à ousadia do híbrido, ao pulso do baixo, aos vocais e ao groove, coisas que ecoam até hoje em mim. Penso que foi dali que, mais tarde, tirei coragem para buscar groove em cateretês e toadas, trabalhar abafamentos, levadas percussivas e pequenas fricções entre o rural e o urbano sem perder a alma caipira;
Com Almir Sater – "Instrumental", entendi que a viola fala sem palavra, que o ponteado, a ressonância e as afinações abertas podem narrar paisagem e afeto, Na prática, comecei a abrir minhas canções com pequenos prelúdios instrumentais, a escrever interlúdios que respiram, e a tratar a viola como protagonista, não apenas como acompanhamento.
Já mergulhado no universo violeiro, "Terra de Sonhos", também do Almir, ampliou meu horizonte de canção com lirismo pantaneiro, melodias largas e arranjos que ensinam a dizer muito com pouco, e aprendi a lapidar imagem, silêncio e linha melódica como quem molda correnteza.
O encontro de Renato Teixeira com Pena Branca e Xavantinho – "Ao vivo em Tatuí" me devolveu a potência do palco despojado, a segunda voz como costura de sentido, a comunhão com o público e a consciência de que tradição é chama e não moldura, inspiração direta para a forma como conduzo repertório, timbre e escuta nos meus shows;
Por fim, posso destacar o álbum "7 Sinais”, de Almir Sater. Um álbum que trouxe a maturidade das fronteiras (milonga, chamamé, guarania) e uma espiritualidade serena que me incentivou a escrever sobre travessias, fé e chão, experimentando a mistura de ritmos com produção contida e timbres claros.
Penso que, dessa mistura, ficou em mim a certeza de que a minha viola pode pulsar moderno sem perder o cheiro de terra: de Hot Space, a coragem do risco e do groove; de Sater, a arquitetura da viola e a canção contemplativa; de Renato, Pena Branca e Xavantinho, a verdade do canto coletivo — e, no encontro desses vetores, nasceu a assinatura que eu persigo nas minhas canções.
Cláudio Lacerda
Gosto e ouvi muita música caipira. Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho... mas minhas referências não são principalmente caipiras. Sá & Guarabyra chegaram junto com Tavito e Zé Rodrix com o rock rural, e me ganharam. Assisti diversos shows deles.
Pirei quando conheci o disco Doma do Almir Sater. Ele veio com um jeito diferente de tocar viola, com letras rurais e contemporâneas. Conheci o Paulo Simões por conta desse disco, que acabou ficando meu amigo e parceiro. Almir é gigante!!
Dércio Marques era um ser encantado, uma entidade. Um arauto inventor de sons imaginários com voz belíssima e potente. Lua Sertaneja (Adauto Santos) e Peão na Amarração (Elomar) são divinas. Aliás conheci Elomar neste disco... outro artista brasileiro que precisava ser muito divulgado e estudado, como ele.
E entre minhas referências não poderia faltar o Bituca. Amo de paixão! Geraes tem Mercedez Sosa cantando com ele... um trem mais lindo do mundo! Milton é essencial para a música brasileira.