Quando a urna vira cena: as eleições no cinema IV


Para fechar a nossa série especial na véspera da votação presidencial e de alguns estados brasileiros no segundo turno, desmontamos o cinismo das campanhas, onde marqueteiros e estúdios inventam o candidato ideal para a televisão. Foto: Unsplash

Por redação CSC

Depois de rodar pelo mandato armado no Brasil, pela paranoia urbana americana e pelas negociatas de gabinete na Europa, a nossa série atraca no espetáculo eleitoral. Se antes o perigo vinha da emboscada ou do grampo clandestino, este quarto ensaio foca na manipulação da imagem pública. O cinema sempre soube que o marketing político opera como uma linha de montagem fria, soterrando a verdade debaixo de comerciais emotivos e crises fabricadas para arrancar votos. Fechamos a rodada com cinco ficções afiadas e uma lembrança provocadora em formato de falso documentário para provar como a busca pelo poder transforma o comício em show de variedades.

4. Marqueteiros, câmeras e a farsa do espetáculo eleitoral

O Candidato Maldito (The Candidate, 1972)

Direção: Michael Ritchie. Roteiro: Jeremy Larner. Elenco: Robert Redford (Bill McKay), Peter Boyle (Marvin Lucas), Melvyn Douglas (John J. McKay). Onde assistir: Max e Apple TV (aluguel).

Vencedor do Oscar de Roteiro Original, o longa acompanha o marqueteiro Marvin Lucas à caça de um azarão sem chances reais para disputar o Senado na Califórnia. O escolhido é Bill McKay, jovem advogado idealista que aceita concorrer com a promessa de falar o que pensa nos palanques. Só que a engrenagem partidária não perdoa. Quando as pesquisas apontam chance de virada, os assessores entram em cena para podar o sujeito, trocando qualquer proposta sincera por frases de efeito feitas para a televisão. Robert Redford brilha ao mostrar o idealista engolido pela máquina que criticava, até soltar a pergunta atordoada no quarto de hotel assim que o resultado sai: "E agora, o que fazemos?".

Tudo Pelo Poder (The Ides of March, 2011)

Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon. Elenco: Ryan Gosling (Stephen Meyers), George Clooney (Mike Morris), Philip Seymour Hoffman (Paul Zara), Paul Giamatti (Tom Duffy). Onde assistir: Max e Prime Video.

George Clooney levou aos cinemas o texto de Beau Willimon para expor a carniça das primárias democratas em Ohio. Stephen Meyers é um assessor jovem que idolatra o discurso progressista do candidato Mike Morris. A admiração rui quando Stephen descobre um podre de alcova do chefe e ainda comete a burrice de ouvir uma oferta da campanha rival. Philip Seymour Hoffman e Paul Giamatti dão aula de cinismo como marqueteiros calejados que movem peças com chantagens e vazamentos de bastidor. Com o emprego na reta, Meyers joga os escrúpulos fora e chantageia o próprio patrão, provando que lealdade de campanha acaba na primeira curva.

Mera Coincidência (Wag the Dog, 1997)

Direção: Barry Levinson. Roteiro: David Mamet e Hilary Henkin. Elenco: Dustin Hoffman (Stanley Motss), Robert De Niro (Conrad Brean), Anne Heche (Winifred Ames), Woody Harrelson (William Schumann). Onde assistir: Max e Apple TV (aluguel).

Lançado semanas antes de o caso Clinton-Lewinsky tomar os jornais, o filme de Barry Levinson soou como profecia imediata. A duas semanas da eleição, o presidente americano é acusado de assédio sexual dentro da Casa Branca. Para salvar a reeleição do naufrágio, o assessor Conrad Brean convoca um produtor vaidoso de Hollywood interpretado por Dustin Hoffman. Juntos, eles inventam uma guerra cenográfica contra a Albânia gravada em estúdio, com jingles patrióticos no rádio e imagens manipuladas para o telejornal. Com texto afiado de David Mamet, a história escancara como o público engole crises artificiais para esquecer a sujeira dos governantes.

Bulworth: O Senador Assassino (Bulworth, 1998)

Direção: Warren Beatty. Roteiro: Warren Beatty e Jeremy Pikser. Elenco: Warren Beatty (Jay Bulworth), Halle Berry (Nina), Don Cheadle (L.D.), Oliver Platt (Dennis Murphy). Onde assistir: Disney+.

Warren Beatty dirigiu e estrelou esta comédia ácida sobre o esgotamento da política tradicional. Jay Bulworth é um senador falido em campanha de reeleição que contrata um assassino de aluguel contra si mesmo para garantir o seguro da família. Certo de que vai morrer em horas, ele chuta o balde e começa a cuspir verdades no microfone: avisa a empresários que doações compram votos no Congresso, ataca laboratórios e rima hip-hop para expor o descaso com as periferias. O desespero dos assessores vira choque quando a sinceridade desmedida faz sua popularidade disparar nas pesquisas, apavorando o partido com um candidato incontrolável.

O Melhor Homem (The Best Man, 1964)

Direção: Franklin J. Schaffner. Roteiro: Gore Vidal. Elenco: Henry Fonda (William Russell), Cliff Robertson (Joe Cantwell), Lee Tracy (Art Hockstader), Kevin McCarthy (Dick Jensen). Onde assistir: Oldflix.

Franklin J. Schaffner filmou este duelo de convenção partidária baseado no texto cáustico de Gore Vidal. O culto William Russell disputa a indicação presidencial contra Joe Cantwell, senador agressivo que ameaça vazar laudos psiquiátricos confidenciais do rival para os jornais. Em resposta, os aliados de Russell desenterram podres da vida militar de Cantwell. No olho do furacão, o ex-presidente vivido por Lee Tracy lembra a regra básica do jogo: convenção não quer saber de elegância moral, mas de quem tem estômago para liquidar o adversário. Russell recusa o golpe baixo na hora decisiva e paga o preço da derrota na contagem dos votos.

Bônus: Bob Roberts (1992)

Direção e roteiro: Tim Robbins. Elenco: Tim Robbins (Bob Roberts), Giancarlo Esposito (Bugs Raplin), Alan Rickman (Lukas Hart III), Ray Wise (Chet MacGregor). Onde assistir: Claro tv+ e Oldflix.

Tim Robbins estreou na direção rodando este falso documentário sarcástico sobre a ascensão da demagogia conservadora. Bob Roberts é um investidor rico que disputa o Senado na Pensilvânia fingindo ser um humilde cantor folk. De violão em punho, ele entoa jingles que atacam programas sociais e defendem a ganância. Ao lado do marqueteiro vivido por Alan Rickman, Roberts forja um falso atentado a tiros para incriminar um jornalista independente que investigava suas fraudes. O picareta termina a corrida fingindo estar paraplégico, faturando as urnas no lombo da comoção pública.

Rodamos pelo mando armado nos bairros, pela paranoia nos EUA, pelas máfias na Europa e pela farsa das telas de estúdio. A lição antes da votação é simples: a urna não faz milagre quando o debate foi engolido pela encenação publicitária. No fim das contas, a dúvida diante de cada santinho no asfalto continua sendo a mesma que Bill McKay sussurrou ao vencer em O Candidato Maldito: e agora, o que fazemos?